
Dusica Yankovich, conhecida por Duda, de origem Sérvia radicada no Brasil, há oito anos, “Moro aqui, amo as pessoas daqui. Sou mais brasileira do que muita gente que nasceu no País, porque fui eu quem escolhi isso. Não apaguei minha origem sérvia, mas tenho orgulho de carregar o nome do Brasil”, diz Yankovich.
Essa loira de 1,69 m e 64 kg pegou gosto pelos esportes ainda criança, praticou natação durante 6 anos, na escola participou dos times de Handball, Vôlei e Futebol, sempre se destacando e ganhando diversos prêmios.
Aos 11 anos apaixonou-se pelas Artes Marciais, e começou a treinar Karatê (estilo Shotokan), aos 14 tornou-se a Faixa Preta mais nova da Sérvia e foi aos 19 que decidiu mudar para um esporte com mais contato e adrenalina: o Kickboxing.
Em 1999, trocou a Sérvia, abalada por conflitos na região balcânica, pelo Brasil com o objetivo de continuar sua carreira no Kickboxing.
Em 2002 fez sua estréia no Boxe, em novembro de 2006 conquistou o cinturão da WIBA (Womens Internacional Boxing Association), tornando-se a primeira brasileira a ser Campeã Mundial de boxe, hoje Duda acumula em seu cartel 8 lutas, todas com vitória sendo 5 delas por nocaute.
Em resumo Duda Yankovich é sinônimo de beleza, simpatia, determinação, inteligência e acima de tudo disciplina para alcançar todos seus objetivos.
AA: O que fez você escolher justamente o Brasil como seu novo lar?
DY: Foi minha escolha na época, tive algumas propostas, mas já conhecia o Brasil de uma viagem onde fui convidada para lutar aqui. Fiquei um mês e me apaixonei pelo país. Era uma opção mais segura por já ter um emprego oferecido (como instrutora de Kick Boxing na época) e também mais desejável, por eu ser uma pessoa que adora sol.
AA: De onde começou essa paixão pelos esportes? Na sua família existe mais algum atleta? Sempre e teve o apoio deles?
DY: Na família sou a única atleta, não tive muito apoio por escolher um tipo de esporte como luta (ninguém gosta de ver a filha fazendo um esforço físico que eu fazia… tomando e aplicando golpes…) mas também a minha família nunca me obrigou a parar ou fazer outra escolha… apenas deixaram rolar.
AA: Você já fez trabalhos como dublê, como modelo e sempre obteve sucesso. Poderia ter escolhido uma dessas profissões. O que fez você optar pelo esporte?
DY: Eu sou atleta, vivo como atleta e gosto disso. Eu faço muita coisa fora disso, mas tudo isso é ou curiosidade, ou vontade de aprender uma coisa nova, ou desafio, talvez até vaidade… mas a minha vida é o esporte. Hoje certamente o Boxe.
AA: Você disse em entrevista, que começou a levar o boxe realmente a sério depois de sua vitória no programa Boxe Brasil, na Band, em 2002. O que foi que mudou em você depois dessa luta?
DY: Mudou que eu nem treinava Boxe antes disso. Era atleta de Kick Boxing, daí eu vi que com um pouco mais de treino e dedicação eu poderia me dar bem no boxe. Afinal o Kick Boxing já estava morrendo e hoje está quase substituído por Vale Tudo e Muay Thai. As pessoas treinam um ou outro mencionado, mas dificilmente procuram o Kick. Já o Boxe é um esporte tradicional… nunca morrerá.
AA: No final da sua luta com a norte-americana Belinda Laracuente, ela reclamou do resultado e pediu revanche. Seu técnico Miguel de Oliveira em entrevista à Rede TV, logo após a luta, disse que essa revanche está aceita. Quando será essa luta e onde? Você achou justas as reclamações dela?
DY: Cada um tem direito de reclamar e faz isso. Era o direito dela. Por mais que tenha aplicado maior volume de golpes, a Belinda acertou poucos e maior número deles na área do abdômen, que era uma parte do planejado, para que ela se aproximasse mais de mim e para que eu pudesse aplicar os cruzados que eu queria. A luta foi levada muito bem, na inteligência, pois a Belinda é uma atleta difícil, muito experiente e muito movimentada, eu tive que pensar muito, ficar calma e não cair na provocação dela. Fiquei concentrada e fiz o trabalho e por isso ganhei sem dúvida nenhuma. Afinal ela não reclamou a derrota, mas a diferença de pontos. Até certo ponto posso dar a razão a ela, mas mesmo se fosse empate ela não ficava com o cinturão, pois quem o conquistou é quem o mantém. A revanche está aceita, mas não sei quando acontecerá e se acontecerá, pois depende da organização deles agora. Eu e meu time, fizemos nossa parte. Eu fui desafiada e defendi meu título, mais do que isso não preciso fazer.
AA: Quando você está próxima a uma luta, o que muda em seus treinos e alimentação?
DY: Os treinos se tornam mais curtos e mais intensos… simulando a própria luta, é feito muito sparring, bastante treinamento de peso com explosão… e também corridas rápidas curtas e intensas. Alimentação? Eu sempre mantenho uma dieta balanceada. Próxima da luta dependo do peso que eu devo ficar, como carboidratos que é complexo para o treino e proteína para “alimentar” a massa magra.
AA: Depois da conquista do cinturão da WIBA, quais são seus próximos objetivos dentro do boxe?
DY: Às vezes eu digo, “é fácil chegar no topo, difícil é ficar lá”. Então para mim, a Duda, nada mudou, eu continuo treinando do mesmo jeito e fazendo as mesmas coisas. Depois de conquistá-lo eu terei de defendê-lo por muito tempo e também tentar unificar com algum dos outros. Então a vida continua do mesmo jeito.
AA: Com o MMA crescendo em todo o Brasil, e hoje tendo nomes de mulheres em destaque como de Cris Cyborg, mesmo sendo você Campeã Mundial de Boxe, já pensou na possibilidade de partir para essa modalidade?
DY: Não pensei… nem penso. Eu respeito MMA (Vale Tudo) e sei o quanto esses atletas precisam de treinamento e dedicação para chegar a uma vitória. Mas acho que cada um fica na sua área. Eu mesma já treinei outras lutas, mas agora me limito apenas ao Boxe. Eu gosto de fazer o que faço bem, me dedicar com tudo. Mas a base de todas as lutas é a mesma. Por mais que sejam muito diferentes, todos nós lutadores buscamos a mesma coisa, superação, desafio, adrenalina, autoconfiança e vitória.
AA: Ser uma mulher bonita, que chama a atenção por onde passa, mais te ajudou ou prejudicou até hoje em ser uma atleta reconhecida pelo seu talento e não por sua beleza?
DY: Eu nunca me vi como uma mulher que seja admirada pela beleza, mesmo porque os gostos são diferentes, não se discute, mais eu não vejo porque a beleza ajudaria na carreira. Eu faço um esporte de alto rendimento físico, de muita habilidade, força, etc. Como a beleza me ajudaria nisso? De jeito nenhum. Agora, após a conquista, o fato de ser uma mulher normal interessa mais as pessoas, elas tem curiosidade para saber se isso é possível e como é possível. Mas isso aí é legal saber, que tem as pessoas admirando esse fato, e eu tento incentivar o maior número de mulheres em primeiro lugar, justamente mostrando que treinar boxe não muda nada na vida, e mais do que nada, não muda o fato de você ser feminina e com certeza mulher.
AA: Você sabe precisar qual o peso de um soco seu?
DY: Nunca medi nada disso… já fui fazer umas besteiras no parque de diversão, mas nada demais. Acho isso totalmente não importante, o que derruba é um golpe perfeito, bem colocado, encaixado e não um golpe forte. Esta é a diferença entre o boxe e a briga de rua.
AA: Já existem lutas marcadas? Para quando e onde?
DY: A próxima luta é de novo para defender o cinturão, será a segunda este ano, contra uma colombiana chamada Paola Rojas. Será no Brasil, mas a cidade e o local ainda não sei.
AA: Você já ouviu perguntas como: “Você sabe lutar mesmo?” ou “Você luta no gel?”. Qual foi a pior das perguntas que já te fizeram? Elas não te fazem sair do sério?
DY: Não me irritam mais, pois é ignorância das pessoas ou maldade. Nenhuma destas coisas deve me irritar, o que me tira do sério é o que é verdade. O que é falado por meus próximos ou pessoas que eu respeito, mas esta pergunta das pessoas que acham que você consegue ser Campeã Mundial tendo um par de olhos azuis, “ai como eu queria… haha”, mas o caminho é muito mais longo e cheio de pedras.
AA: Sobre o filme Menina de Ouro, você acha que é apenas mais uma produção cinematográfica ou que realmente retrata a realidade de uma boa parte de atletas que possuem talento, mas poucas condições para um treinamento de qualidade?
DY: O filme despertou interesse para o Boxe feminino, mas nem 100% positivo. Existem muitos fatos verídicos no filme, como preconceito, não aceitação de uma atleta feminina, dificuldades no esporte, pouco ganho, muito treino, politicagem e traições no meio da organização, isso sim. Mas os fatos que acontecem no fim do filme, e a última luta não são muito prováveis de acontecer. Aliás, eu nunca ouvi falar nada do gênero. E tudo bem, quem conhece Boxe entenderá, e não falará apenas o começo e o fim – Boxe Mata – e isso não pode acontecer. O filme se tornou anti-propaganda deste esporte maravilhoso. Achei um pouco anti-filme também. Não sei…
AA: O que você diria aos homens que ainda possuem preconceito quando vê alguma mulher praticando esportes como Boxe, Jiu Jitsu, Muay Thai, entre outros?
DY: Então, não aceitar mulher neste tipo de treino é meio normal, meio instintivo do homem, mas também é muito machista. Embora me considerem e me chamam de feminista, não sou, acho que diferenças existem e muitas, por isso temos dois sexos, mas a que se fala desse tipo de esporte é uma escolha, cada um pode tentar treinar e ter o melhor resultado possível. Não vejo porque não deixar uma mulher treinar se ela mesma fez a escolha. Ela terá que viver com lados bons e lados ruins deste esporte como em tudo na vida, mas a escolha é só dela e ninguém tem direito de opinar. Igual seria eu falar que não vou comer em um restaurante onde homem cozinha, pois não é natural. Eu conheço muita mulher que nem ovo sabe fritar, então a questão não é sexo, é a escolha… quem faz e quem luta para seu lugar no sol.
AA: Por que as mulheres que ainda possuem algum receio em praticar boxe deveriam deixá-lo de lado?
DY: Muitas tem dúvidas, ouvem muitas lendas, etc. Concordo que nem toda mulher deve lutar mesmo, enfrentar o ringue, pois este é o passo para aquelas que querem mesmo seguir a carreira. A dedicação tem que ser maior, tem seu lado ruim também, mas o treinamento de Boxe em si é uma das melhores atividades para ajudar a ganhar condicionamento físico, resistência, força, etc. Algumas procuram pela defesa que também tem seu papel, mas a maioria deve procurar, este é o meu conselho, pelos benefícios físicos (melhora de físico pessoal) e pelos benefícios mentais (Boxe é um ótimo fator anti-stress), também a mulher que treina uma luta é sempre mais confiante, mais decidida, tem mais atitude. Acho que mulheres devem pensar nisso quando se fala do Boxe e não da lenda estúpida que alguém disse que tem que quebrar o nariz e tirar a cartilagem para começar a treinar o Boxe… “ah… me poupem”…
AA: Finalizando, gostaria de agradecer sua atenção e toda a paciência em nos conceder essa entrevista. E pedir que deixe um recado para todos do Centro de Treinamento Elite Fight.
DY: Tenham atitude!!! Seja no Boxe ou no Balé, seja na luta ou na música. O que conta é a atitude e as pessoas que fazem a diferença. Embora não tenha nada contra, novela das 8 não faz a diferença, nem o ator gato principal. O que faz a diferença são as pessoas do seu lado, que têm atitude, basta olhar!!!






