Diogo Silva
Enviado em 7 de Agosto de 2007
Publicado por Andréa Alves | Enviar por e-mail
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Ele teve uma infância difícil, uma Mãe guerreira e um sonho: aprender a lutar como nos filmes que assistia na televisão.
Diogo Silva, com 1,78m 68 kg e 25 anos esse caiçara de São Sebastião, criado em Campinas e hoje morador de Londrina mostrou a todos que acompanharam os Jogos Pan-Americanos à que veio.
Com golpes precisos e perfeitos, Diogo ficou com a medalha de ouro em sua categoria, e diga-se de passagem, a primeira de ouro que o Brasil obteve nesses jogos entre as 54 conquistadas.
Mas nada foi fácil, para chegar ao topo do pódio ele ainda teve que desembolsar 5 mil reais de seu próprio bolso para manter o seu treinamento antes do Pan.
Em entrevista exclusiva Diogo mostra que também não tem papas na língua e responde tudo com a maior precisão.
Você disse em entrevistas que sua Mãe o levou a uma academia e quis que fizesse uma luta para parar de arrumar confusão. Qual a importância que o esporte tem na formação do caráter de uma criança?
O esporte tem a capacidade de socializar crianças e jovens no meio em que vivem. As oportunidades de crescimento nas classes pobres são muito baixas, o incentivo em educação é quase zero. O esporte que tem dentro de seu contesto a motivação, disciplina e trabalho em grupo, traz uma auto-estima para quem pratica e um resultado positivo na gestão educacional.
“No bairro onde eu nasci para você ser alguém, tinha que ter uma arma. Muitos dos meus amigos continuaram por este lado.” Essa sua frase reflete uma realidade cada vez maior de nossa sociedade. Hoje certamente você é um ídolo nacional. Você espera com essa notoriedade poder ajudar a dar bons exemplos e a tirar jovens da rua?
Histórias como a minha nasce todos os dias no subúrbio do Brasil. O importante nesse momento é se criar soluções para que adolescentes não migrem mais para o tráfico de drogas. A integração do esporte junto às escolas e universidades do Brasil seria um bom começo. Projetos sociais com inclusão social e digital remunerado dariam mais base, e diminuiria histórias como a minha.
Em sua página de relacionamentos na internet praticamente todas as suas comunidades possuem um cunho político ou racial. Quando começou esse engajamento?
Na escola eu percebi que não tinha nenhum livro que fala sobre a história dos negros, eu só aprendi que os negros foram escravos e hoje dominam as classes pobres do mundo. Eu não tinha nenhum exemplo para seguir, não conhecia ninguém que me desse orgulho. Foi quando com 20 anos comecei a procura minha história, foi quando descobri Zumbi dos Palmares, Marcos Garvei, Black Panters, Malcom x, Nelson Mandela e outros. Foi quando percebi que eu vivia em uma sociedade racista e negligente, e precisava obter o máximo de conhecimento para não ser subjugado por ninguém. Nesse momento me tornei um militante das causas sociais e raciais e troquei de religião (antigamente católico hoje umbandista).
Sabemos que no Brasil o patrocínio na grande maioria dos esportes não existe. Você vê alguma forma de mudar isso? Se pudesse fazer um apelo aos governantes e instituições privadas referente ao patrocínio de atletas, o que diria?
Existem várias formas de se captar recursos para uma instituição. Seja na forma de patrocínio ou na forma do abatimento do imposto de renda. O governo deveria criar uma lei para esse estreitamento comercial. Eu nunca apelo para o governo, eu exijo do governo. Somos fortes no esporte, o que precisamos é de melhores condições de trabalho e investimento, as universidades do Brasil poderiam fazer esse investimento.
Por sua medalha ter sido o primeiro ouro, você acha que isso refletiu em uma mídia maior tanto para o Taekwondo como para você?
Possivelmente, eu ganhei uma medalha, o Thiago Pereira ganhou oito. Só me destaquei pela minha história de sofrimento. A mídia gosta quando isso acontece, dá ibope.
Quando você fez seu protesto nos jogos Olímpicos de Atenas em 2004 vestindo uma luva preta dos Black Panthers você acabou sendo chamada a atenção. Faria tudo novamente, mesmo sabendo das conseqüências?
Eu não faria novamente, eu ressuscitei o movimento no esporte. Mas espero que outros atletas um dia façam.
A maioria dos pontos no Taekwondo são feitos através de chutes, você acha que uma variação com soco não seria uma boa idéia já que socos no tronco são permitidos?
O taekwondo só é bonito de se ver, porque não se vale soco no rosto. Se torna uma luta estratégica e inteligente.
Depois do resultado duvidoso das lutas do Márcio Wenceslau e da Natália Falavigna foi pedido que os juízes pudessem usar telões para confirmar a pontuação e também fosse adotado o uso de sensores eletrônicos, como na esgrima. Você acha uma boa idéia implantar essa tecnologia para saber quem aplicou e acertou primeiro o golpe?
Já está em estudo coletes eletrônicos, tudo que beneficiar os atletas é valido.
Muitos atletas de lutas marciais estão migrando para o MMA, você já pensou nessa possibilidade?
Não. Ainda tenho duas olimpíadas pela frente, e não vou querer apanhar depois de velho (rsrsrs).
Foi noticiado essa semana que quatro atletas foram pegos pelo doping. Dois dos frascos positivos, deverão ser isentos já que foram acompanhados por justificativas. Os outros dois, porém, deverão ser levados em conta, havendo grandes chances de os atletas serem punidos. Em relação a isso, você acha que ainda hoje atletas insistirem no uso de substâncias ilícitas é por acreditarem que sairão impunes?
O doping sempre existiu no meio esportivo, como a corrupção sempre existiu na política brasileira. Isso nunca vai acabar.
Na sua opinião o Brasil possui estrutura para sediar os jogos Olímpicos de 2016? Depois dos jogos Pan-Americanos do Rio, você acha que as chances aumentaram para que isso ocorra?
O Brasil deveria se preocupar em abrir centros de treinamentos, captar recurso para os esporte que se destacaram no pan. Sediar os jogos olímpicos sabendo que existem atletas de elite morando em favelas. Isso é ignorância.
Em entrevista ao site UOL após sua vitória, você disse que no Mundial, havia ido muito mal e decidiu que algumas coisas deveriam mudar “de dentro para fora, não de fora pra dentro”, que coisas foram essas que mudaram em você?
Todo treino que eu fazia eu pensava que estava lutando com um adversário do pan, e condicionava a minha mente a superar a dor e o cansaço.
Quero agradecer a sua atenção e pedir que você deixe um recado para o pessoal do Centro de Treinamento Elite Fight.
Espero que vocês tenham gostado da entrevista, e que alguma coisa que eu falei tenha servido para melhorar seu caráter. Seja um vencedor, ou morra tentando. Um abraço Diogo Silva