Um Dia Triste
Enviado em 23 de Janeiro de 2008
Publicado por Andréa Alves | Enviar por e-mail
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Ontem eu dormi mal. Geralmente, apago de noite e fico como uma pedra, parado, até o dia seguinte. Mas ontem, por volta das 6:30 da manhã, comecei a me revirar na cama. Levantei, desliguei o ar condicionado, abri as janelas, tapei com roupas a fresta que o vento que começou a bater abriu entre a cortina e o chão, trazendo uma indesejada claridade, deitei, tornei a levantar, fechei as janelas, religuei o ar condicionado.
Um pouco depois das 7:15 da manhã consegui pegar no sono novamente. Acordei algumas horas mais tarde e me levantei. Abri as cortinas do quarto e o dia estava nublado, chuvoso, feio. Geralmente gosto dos dias mais cinzentos, ontem não foi assim. Li o jornal na sala, ainda sem lembrar que meus telefones celulares estavam desligados. Quando acabei, vim até meu escritório checar os emails e vi que havia uma nova mensagem na secretária eletrônica. Era da produção da novela, pedindo que ligasse assim que pudesse – devem ter mudado o roteiro e vou ter que gravar hoje, pensei.
Com uma das mãos peguei o telefone para retornar a ligação, e com a outra apertei o enter no teclado do computador. Quando ia começar a discar, a página da globo.com me bombardeou sem preparo: “Morre o ator Luis Carlos Tourinho”.
Gelei. Não pode ser verdade, foi a primeira coisa que pensei. Havia gravado com ele dois dias antes, rimos muito, nos divertimos com as trapalhadas do seu aloprado Nezinho, que estava sempre presente na ações do meu pilantra Diogo. Em cena, dei-lhe uns tapinhas no rosto, e preocupado se aquilo podia de alguma forma ofendê-lo, perguntei se a atitude o incomodava. Imagina, ele respondeu, eu acho que vai ficar engraçado!
A cena terminou com ele correndo, fugindo, da minha loja, e eu gritando – Nezinho, volta aqui, Nezinho!
Alguns momentos depois, consegui recuperar o fôlego e ligar para a produção. Com voz desolada, Daniela, uma de nossas produtoras, me confirmou o fato. Parti imediatamente para o PROJAC onde vários de meus colegas já estavam, tão arrasados quanto eu, esperando para partir em comboio rumo ao velório. A sensação comum era de perplexidade. Duro assimilar um golpe desses, vindo tão inesperadamente. Já tão acostumado a ver lágrimas caírem daqueles rostos em cena, me peguei espantado com a dureza do choro verdadeiro e involuntário que saia de seus olhos. Só percebi que também chorava quando um de meus amigos, solidário, me abraçou.
No caminho para o cemitério, comentei da dificuldade que tinha tido em dormir, e vários colegas me disseram terem passado pelo mesmo. Nosso amigo nos deixou por volta das 7:10 da manhã. Coincidência ou não, não duvido de nada.
Tourinho era uma figura. Alto astral, piadista, bom colega. Não tínhamos tanta intimidade, mas nas duas vezes em que trabalhamos juntos e nas incontáveis vezes que nos cruzamos por aí, sempre nos divertimos muito, ele me deixava encantado com sua generosidade comigo. Com todos. E isso, aliado a seu enorme talento, fez com que cativasse todo mundo por onde passou. Cada um que entrava naquela sala do Adeus, não queria acreditar no que estava acontecendo. A impressão geral é que a qualquer momento ele ia pular do caixão e, com uma cara matreira, dizer – Vocês não acreditaram mesmo nisso, né?
Mas era verdade. Perdemos nosso colega, perdemos nosso amigo. A família das artes do Brasil perdeu um maravilhoso integrante. Dona Edna, de quem não consegui me aproximar, perdeu seu filho. Não posso e nem quero imaginar sua dor. Só desejar força para seguir sua vida, em Paz, e, espero que em breve, com felicidade.
“Desejo Proibido” tem o elenco mais unido que já vivenciei na televisão. E vamos, em nome desse irmão que nos deixou, honrar seu trabalho e seguir em frente com garra, esperando fazer a cada dia, a cada novo capítulo, o que ele fazia tão bem: atuar, divertir a todos.
Um beijo, Tourinho. Fique com Deus.
PS: me faltaram palavras então “roubei” as do Pedro que certamente pode descrever essa tristeza muito melhor do que eu… =/