O PESO DA GLÓRIA
Certo guerreiro recebia uma medalha por cada batalha ganha. Os amigos admiravam sua coragem e as mulheres adoravam seu carisma.
No final de alguns anos, as medalhas eram tantas que cobriam todo o seu uniforme. Numa tarde, no meio de um combate difícil, o guerreiro quase foi atingido pela espada de seu inimigo.
“Sempre fui o melhor, e hoje quase perdi”, pensou o guerreiro.
Mas logo percebeu o problema: o peso das medalhas não o deixava lutar com agilidade. Jogou a túnica do uniforme no chão, voltou ao campo de batalha e derrotou seus inimigos.
“A vitória pode me dar confiança, mas não pode se transformar em um peso a ser carregado”.

O CAVALO E SEU DESTINO
Certo mensageiro foi enviado em uma missão urgente para uma cidade distante. Colocou a sela em seu cavalo e partiu a todo galope.
Depois de ver passar várias hospedarias, onde sempre alimentavam os animais, o cavalo pensou:
“Já não paramos para comer em estrebarias e isso significa que não sou mais tratado como um cavalo e, sim, como um ser humano. Como todos os homens, creio que comerei na próxima cidade grande”.
Mas as cidades grandes passavam, uma após a outra, e seu condutor continuava a viagem. O cavalo então começou a pensar: “talvez eu não tenha me transformado em um ser humano, mas em um anjo, pois os anjos jamais necessitam de comida”.
Finalmente, atingiram o destino e o animal foi conduzido até o estábulo, onde devorou o feno ali encontrado, com um apetite voraz.
“Por que achar que as coisas mudam se elas não seguem o ritmo de sempre?”, dizia para si mesmo. “Não sou homem nem anjo, mas apenas um cavalo com fome”.

A SOLIDÃO DO ESPANTALHO
Certa vez, passeando por um campo, um homem viu um espantalho, e comentou: “deves estar cansado de permanecer aí, neste campo solitário, sem nada para fazer”.
O espantalho respondeu: “O prazer de afastar o perigo é muito grande, e eu jamais me canso de fazer isto”.
O homem concordou: “Sim, eu ajo desta maneira, com bons resultados”.
“Mas só vive espantando coisas, aqueles que estão cheios de palha por dentro”, disse o espantalho.
O homem demorou anos para entender a resposta: quem tem carne e sangue em seu corpo, precisa aceitar algumas coisas que não está esperando. Mas quem não tem nada dentro, vive afastando tudo que se aproxima - e nem mesmo as bênçãos de Deus conseguem chegar perto.

A TEORIA DA VIDA
A vida não é pedir ou dar conselhos. Se precisamos de ajuda, é melhor ver como as outras pessoas resolvem, ou não, seus problemas.
Nosso anjo está sempre presente e muitas vezes usa os lábios de alguém para nos dizer algo. Mas esta resposta nos vem de maneira casual, geralmente quando, embora atentos, não deixamos que nossas preocupações turvem o milagre da vida.
Deixemos nosso anjo falar de maneira como ele está acostumado – quando ele achar que precisa.
Diz o mestre:
Os conselhos são a teoria da vida e a prática, em geral, é muito diferente.

O GUERREIRO DA LUZ E SEU ADVERSÁRIO
Comenta um sábio chinês sobre as estratégias do guerreiro da luz:
“Faça seu inimigo acreditar que não conseguirá grandes recompensas se decidir atacá-lo; desta maneira, você diminuirá seu entusiasmo”.
“Não tenha vergonha de retirar-se provisoriamente do combate, se perceber que o inimigo está mais forte; o importante não é a batalha isolada, mas o final da guerra”.
“Se você estiver bastante forte, tampouco tenha vergonha de fingir-se de fraco; isto faz seu inimigo perder a prudência, e atacar antes da hora”. “Numa guerra, a capacidade de surpreender o adversário é a chave da vitória”.

A GENEROSIDADE
Muhammad ib Sugah conta a história de Abdulah e Mansur, dois fiéis muçulmanos.Certo dia, Abdulah pediu ajuda ao amigo.
O tempo foi passando, e nenhuma ajuda foi dada. Um dia, Mansur perguntou:
“Meu irmão, você me pediu ajuda, e eu não fiz nada. No entanto, você parece não ter se irritado com isto”.
“Temos uma longa amizade. Aprendi a amar-te antes de precisar de um favor. E consigo continuar te amando, não importa se tu me atendes ou não”.
Mansur respondeu:
“Eu não fiz o que pediste, porque queria saber a força de teu desejo. Vi que esta força é maior do que a discórdia e o ódio; amanhã você terá o que pediu”.

TENTANDO CONTROLAR A ALMA
Muitas vezes achamos que podemos controlar o amor. E, neste momento, nos surpreendemos fazendo uma pergunta complemente inútil: “será que vale mesmo a pena?”
O amor não respeita esta pergunta. O amor não se deixa avaliar como uma mercadoria. Um dos personagens da peça “A Boa Alma de Setzuan”, de Bertold Brecht, nos fala da verdadeira entrega:
“Quero estar junto da pessoa que amo. Não quero saber quanto isto vai me custar. Não quero saber se isto vai ser bom ou ruim para minha vida. Não quero saber se esta pessoa me ama ou não. Tudo que preciso, tudo que quero, é estar perto da pessoa que amo”.

MOVIMENTANDO A SOMBRA
Myiamoto Musashi, o célebre samurai que escreveu “O livro dos cinco anéis”, fala da estratégia para se compreender o espírito e as qualidades do inimigo.
Segundo ele, quando não conseguimos saber o que nosso adversário pretende, devemos fingir um ataque. Todas as pessoas do mundo estão sempre preparadas para se defender, porque vivem no medo e na paranóia de que os outros não gostam dela.
Desta maneira, também nosso adversário – por mais brilhante que seja – é inseguro e reage com violência exagerada à provocação. Ao fazer isso, mostra todas as armas que tem, e ficamos sabendo onde está forte e quais são os seus pontos fracos.
Musashi chama esta técnica de “movimentar a sombra”.
Na verdade, o guerreiro da luz não entra no combate, mas provoca um pouco e a sombra de sua provocação confunde o adversário.
Então, sabendo exatamente que tipo de confronto deve esperar, o guerreiro da luz ataca ou recua.

DOS DIÁLOGOS
Um guerreiro, de vez em quando, fala sozinho. Mas não fica o tempo todo prestando atenção a sim mesmo.
Uma coisa é escutar seu coração. Outra coisa é ficar só conversando consigo mesmo, sem prestar atenção aos outros. Se agir assim, não conseguirá dormir direito, e perderá o prazer dos momentos importantes do dia.
Dentro de cada um de nós existe um anjo e um demônio, e suas vozes são muito parecidas. Diante de uma dificuldade, o demônio alimenta esta conversa, procurando nos mostrar como somos fracos e injustiçados. O anjo nos faz refletir sobre nossas atitudes, e ajuda a encontrar o melhor caminho.
Um guerreiro está sempre atento a estes detalhes, e não se deixa enganar.

O EMPREGADO INTELIGENTE
Na época em uma base aérea na África, o escritor Saint-Exupéry fez uma coleta com seus amigos, pois um empregado marroquino queria voltar à cidade natal. Conseguiu juntar mil francos.
Um dos pilotos transportou o empregado até Casablanca, e voltou contando o que aconteceu:
- “Assim que chegou, foi jantar no melhor restaurante, distribuiu generosas gorjetas, pagou bebidas para todos, comprou bonecas para as crianças de sua aldeia”.
- “Este homem não tinha o melhor sentido de economia”.
- “Ao contrário” - respondeu Saint-Exupéry. – “Ele sabia que o melhor investimento do mundo são as pessoas. Gastando assim, conseguiu de novo ganhar o respeito de seus conterrâneos, que terminarão por lhe dar emprego. Afinal de contas, só um vencedor pode ser tão generoso”.

VOZ INTERIOR
Na maior parte das vezes, confundida com “inspiração”, o que é um equívoco. Estamos sempre escutando certas vozes interiores, ruídos destinados a nos distrair, a nos fazer perder o contacto com a vida. Não se calam, não sossegam nunca. Certas Tradições mágicas dizem que nosso controle sobre estas vozes é quase nenhum.
Quem já experimentou meditação sabe o quanto isto é verdade; e mesmo quem nunca meditou sabe que elas existem (músicas que cantamos mentalmente, pensamentos que não conseguimos evitar, etc.) Só uma coisa faz calar estas vozes: o Entusiasmo. Quando estamos verdadeiramente envolvidos na arte de viver, estas pequenas e mesquinhas vozes interiores deixam de falar suas bobagens - e então podemos ouvir a voz de nosso anjo da guarda, a voz de nosso coração, a voz de Deus.

MOVER-SE É VIVER
Estou numa festa de São João, com barraquinhas, tiro ao alvo e comida caseira. A única coisa curiosa é que, de determinado ângulo da rua de casas de dois andares, podemos ver os edifícios mais altos do mundo; a festa do interior está acontecendo em plena Nova York.
De repente, um palhaço começa a imitar todos os meus gestos. As pessoas riem, e eu também me divirto. No final, convido-o para tomar um café.
“Comprometa-se com a vida”, diz o palhaço. “Se você está vivo, você tem que sacudir os braços, pular, fazer barulho, rir e falar com as pessoas, porque a vida é exatamente o oposto da morte”.
“Morrer é ficar sempre na mesma posição. Se você está muito quieto, você não esta vivendo”.

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